segunda-feira, 26 de julho de 2021

41. Japão, Kanae Minato, Confissões

 Japão, Kanae Minato, Confissões, julho de 2021.

Este livro apareceu-me e tive algumas dúvidas sobre inseri-lo nesta lista. No entanto, é atual, é o primeiro livro da escritora que é nossa contemporânea. Kanae Minoto é jornalista e este livro foi adaptado ao cinema. A ideia é que, para além de um thriller, é uma visão um pouco assustadora sobre o sistema educativo e sociedade japonesas.

Moriguchi é uma professora cuja filha de quatro anos morreu, ao que se presume devido a um acidente. No entanto, no último dia de aulas, ela diz à sua turma que sabe que dois alunos que ali estão a mataram. Os alunos, referidos como A e B, não serão acusados por ela devido a uma lei que protege os jovens. No entanto, esta mulher resolve aplicar uma espécie de vingança aos seus alunos... 

A partir daqui, seguimos esta narrativa de primeira pessoa. Primeiro, é Moriguchi a narradora, depois, cada um dos alunos indicados; depois, uma das alunas, também envolvida; por fim, a mãe de um dos culpados. Obviamente não há muitas surpresas desde que sabemos o que aconteceu. No entanto, há uma espécie de dissecação psicológica dos motivos e pulsões de cada um dos jovens e também da mãe, algumas passagens arrepiantes (apenas por serem jovens comuns, com quem nos podíamos cruzar no dia a dia). Cada um fornece a própria perspetiva e os motivos de ter agido daquela forma. No último capítulo, voltamos à narradora Moriguchi. Será que a sua vingança foi bem conseguida? Quais as motivações dos criminosos? 

Encontramos uma sociedade rígida e cheia de regras, pais distantes e mães muito dedicadas que, no entanto, poderão ter de escolher entre a família e a carreira e serão mal vistas (tal como Moriguchi) se tentarem conciliar a maternidade com um horário exigente: o que fazer a uma criança depois do horário da creche? De resto, os adolescentes continuarão a ser rebeldes, a chamar a atenção da família de boas ou más maneiras, a experimentar e a transgredir, independentemente do país. 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

#Leituras do mês - junho de 2021

 Leituras de junho:

Quando estamos em meados de julho e vemos que isto ainda aqui não foi registado, vemos que a importância que dou às listas está subaproveitada... Então, vamos lá:

- Robert Galbraith (AKA J. K. Rowling), Letal White (Cormoran Strike 4), 4*
(gosto deste livros, mas pouco me lembro do anterior quando os leio, o que é um problema; gosto das figuras dos detetives, mas ele não consegue cativar-me por completo, especialmente com as constantes referências à sua deficiência e às suas decisões questionáveis. Já percebemos que é humano, J. K.!);
- Samantha Shannon, Temporada dos ossos, 3*
(ideia interessante, ambiente «giro», mas faltam tantas ancoragens ao real que não se aceita completamente);
- Jenny Colgan, The bookshop on the shore, 4*
(voltamos ao mundo da biblioteca sobre rodas, na Escócia, desta vez com uma mãe solteira e criancinha fofinha, mais um pai sozinho com uma série de filhos mal educados e uma mansão velha com uma biblioteca gigante e mágica.... Percebem a razão de ser desta leitura??) ;
- Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho (DLM Turquia), 5*
(já escrevi sobre ele aqui, é excelente e mágico e tudo o que um livro deve ser. Os «10 minutos» até poderiam ser «cinco horas» e eu lia. Muito bom!);
- Taylor Jenkins Reid, Os sete maridos de Evelyn Hugo, 4*
(gostei, mas a cada casamento havia algo a escapar-me. A demasiada publicidade é mesmo isso: demasiada...);
- Mary Hoffman, A cidade das máscaras e A cidade das estrelas, 4* cada (Série Stravaganza 1 e 2) (viagens no tempo e no espaço, de Inglaterra para uma Itália da Renascença, com jovens e adultos em ambientes históricos e mágicos. Já usei esta palavra aqui muitas vezes, mas aqui é mesmo aplicável. Viajar através destes livros foi bom. Onde poderei encontrar os restantes?);
- Britt Bennett, A outra metade, 4*
(outro cuja publicidade é em excesso. Sim, é bom, é interessante, bem escrito e levanta questões importantes. Remete para uma realidade americana, o que o deixa um pouco lá ao fundo na questão dos direitos humanos e da tolerância. O fim é precipitado e ficam questões por esclarecer);
- C. Pam Zhang, Montanhas douradas, 4*
(aqui está outro que deveria continuar. Universo real, duro, cru, difícil. A imigração chinesa e a realidade de uma primeira e segunda geração de imigrantes que nem sequer sabem a que mundo pertencem. Personagens a que nos apegamos porque são crianças a sobrevier num mundo adulto sem que isso transpareça porque é como se estivéssemos na sua pele com os seus problemas e a perspetiva muda o tom do romance. O tom poético usado ao transmitir realidades tão duras faz dele algo de muito especial. É um primeiro romance e já estou a seguir esta autora no Goodreads e no Insta. Só não lhe dei a outra estrela porque, mais uma vez, a história é aberta...).
9 livros.
Mês de muito trabalho e com menos leituras. A maioria mais leve (como o de Jenny Colgan e os de Mary Hoffman, estes trazidos da biblioteca e que me levaram em viagem para uma Veneza e uma Siena transfiguradas).
O melhor? O de Elif Shafak. Colorido, cru, doce. Para reler.

sábado, 10 de julho de 2021

38. Filipinas, Mia Alvar, In the Country: Stories

 Filipinas, Mia Alvar, In the Country: Stories (contos «Kontrabida» e «The Miracle Worker»), julho de 2021

Este é o primeiro livro de Mia Alvar (nascida em Manila, Filipinas, em 1978) e é uma coletânea de contos sobre a diáspora filipina. Apenas li dois, no Kindle, e apresentam alguns aspetos sobre este país. Tenho ideia de ler os seguintes, pois interessaram-me: têm uma linguagem rica e variada, demonstrando cambiantes de sentido muito expressivos. Além disso, não fiquei totalmente esclarecida sobre as Filipinas. A própria autora viveu no Bahrain e nos EUA, onde estudo. Regressou ao seu país e recolheu informação para este, que foi o seu primeiro livro. 



O primeiro conto, «Kontrabida», refere-se a um emigrante nos EUA, farmacêutico, que regressa ao seu país natal para apoiar a mãe, caracterizada pelas suas infinitas qualidades, nomeadamente a sua paciência e abnegação no tratamento de um marido abusivo com uma doença terminal. Relatam-se alguns aspetos da vida doméstica desta e de outras mulheres semelhantes; o marido que recusou que ela trabalhasse fora de casa, que a agredia e que agora, sofrendo de uma doença terminal, a sobrecarrega com o seu sofrimento. Refere-se o facto de trabalhar em casa, onde tem um pequeno negócio doméstico, um «sari-sari»; como é em casa, já pode trabalhar nele... Fala-se da comida, da vida familiar com uma grande família alargada, e das suas características. O protagonista veio apoiar a sua mãe e trouxe escondidas da alfândega na mala algumas aplicações de morfina para aliviar o sofrimento do pai. Claro que enfrentou um dilema moral, porque os roubou da farmácia hospitalar onde trabalha; no entanto, as considerações sobre custos, seguros e a realidade filipina acabam por pesar. No entanto, numa das manhãs seguintes, ao acordar encontra o pai morto e tudo em andamento para se efetuarem as últimas despedidas da família. O pacote de aplicações de morfina está praticamente vazio... O que terá acontecido??

No conto seguinte, Sally, diminutivo de Salvación, emigrou para o Bahrein para acompanhar o marido que trabalha na indústria petrolífera. Fala-se da grande diáspora filipina e de como de uma vida pobre, quase miserável, passou a ter uma casa grande e luxuosa segundo o ponto de vista anterior. No entanto, Sally tem uma formação no âmbito da Educação Especial e, um dia, surge-lhe uma solicitação para acompanhar e desenvolver uma criança de cinco anos que não fala nem executa movimentos autónomos; no entanto, a mãe considera que Sally pode fazer um milagre com o seu trabalho e atenção, redobrando os seus presentes e pagamentos. Apresenta-se aqui alguma reflexão sobre a formação escolar, que a mãe da criança, sendo abastada, não possuía, por ser natural de um país muçulmano, e da maneira de lidar com a deficiência ali: escondê-la. Estes aspetos são próprios de um país que não era o selecionado, por isso passo à frente. O que se tira de Sally são as mudanças de alguém que, ao receber um pagamento por uma tarefa inglória, tem uma atitude menos abonatória: o marido surge desvalorizado, menos digno de estima por características que antes não a incomodavam e que passam pelo saber estar, o dinheiro colmata o facto de se sentir impotente para trabalhar com aquela menina, mas não querer abdicar do que el lhe proporciona. No entanto, será que um milagre será possível?

17- Bélgica - Amélie Nothomb, Le Crime do Comte Neville



Bélgica - Amélie Nothomb, Le Crime do Comte Neville, lido em janeiro de 2021

Já antes tinha lido uma novela desta autora, mas cujos cenários eram variados. Um dos meus alunos leu este livro antes das férias do Natal e pedi-lho emprestado.

Este conto passa-se na Bélgica, num «château» de uma antiga família nobre, e transmite esse estranho (para nós) modo de vida, em que as aparências e a realidade monetária nem sempre se complementam. Entre as descrições de um local definido e os comportamentos de personagens mais ou menos estranhas, recebemos o quotidiano que bem pode ser real (mas também pode não o ser). O Conde Neville prepara-se para se despedir da sua morada ancestral, que não tem meios para manter, quando recebe um aviso de uma vidente que o deixa extremamente preocupado. Será que conseguirá ultrapassar o seu dilema? E a sua filha adolescente, Silencieuse, representante daquele mal estar adolescente de se sentir pouco à vontade na vida, mas tão conivente com esse pai, boa pessoa acima de tudo, será que conseguirá ajudá-lo a superar a situação de uma morte predita? A inclusão de algum humor e crítica social, bem como uma reviravolta final, tornam a leitura divertida.

Amélie Nothomb nasceu em 1966, viveu parte da sua primeira infância no Oriente com pais diplomatas e vive atualmente em Bruxelas. Já publicou uma grande quantidade de novelas e diz-se que escreve «desde sempre». Tem um estilo culto e inteligente, faz uma certa crítica social (bem visível neste conto) e manifesta uma capacidade de transfiguração do real e de efabulação muito criativas. O outro livro dela que li, «L' anatomie de la faim»,  transmite-nos mais essa vontade própria de controlar, tão típica da atualidade, que se pode transmitir através de uma anorexia material ou não, realizada através de palavras e atos. É uma autora arguta e que nos surpreende. Uma boa representante da atualidade de um país com o qual nem sempre esteve em ligação, mas que pode representar. 

Ler mulheres à volta do mundo