sexta-feira, 28 de maio de 2021

36. África do Sul, Nadine Gordimer, A história de meu filho

 África do Sul, Nadine Gordimer, A história de meu filho

Nadine Gordimer nasceu em  Springs, Transvaal, na Africa do Sul em 20 de novembro de 1923 e morreu em 13 de julho de 2014. Foi uma escritora, ativista política e pela causa do HIV. Foi reconhecida como Nobel da Literatura em 1991 como uma mulher que «através da sua escrita épica foi um grande benefício para a humanidade», segundo Alfred Nobel. Na sua obra, apresenta problemáticas sobre as questões raciais, particularmente sobre o apartheid no seu país. Alguns dos seus livros foram proibidos. Fez parte do ANC. 

A história que este livro conta é importante, visto tratar da vida de uma família que vive durante o apartheid e sofre a sua desagregação devido a questões associadas. Através de monólogos interiores, ficamos a conhecer o casal Sonny e Aila, cujo relacionamento é estreito e baseado em respeito e admiração mútuos. Têm 2 filhos, Baby e Will. Soony era professor, mas foi afastado por ter participado em protestos em prol da comunidade. Envolve-se mais nos protestos contra o apartheid e é preso. Ficamos a saber os efeitos sobre a família. Depois de sair da prisão, tenta manter-se a par da sua família e retomar a sua vida.  No entanto, um dia, é visto pelo filho num cinema com a sua amante branca, Hannah, uma das ativistas da causa, que o visitou na prisão e se lhe tornou imprescindível na partilha de pensamentos sobre a sua luta. Will põe tudo o que conhece em causa por causa desse encontro. Analisa a repugnância que aquela mulher branca lhe causa e que se justifica pela sua cor, mas também por ter destruído o seu mundo, apesar de o pai e a mãe se comportarem da mesma forma. Baby acaba por aderir à causa, sai do país e vai continuar a vida na Zâmbia. Sonny não tem direito a passaporte. Aila visita a filha e conhece a neta. Um dia, Aila é presa: encontram armas na garagem. Aqui, é a última prova sofrida por esta família, num ambiente tenso de segregação racial. 
Neste livros, a opressão, a injustiça e as regras são transmitidas claramente. No entanto, a leitura foi lenta e penosa devido à grande quantidade de pensamentos políticos e metafísicos que tornava a leitura cansativa. A mancha gráfica muito cerrada também não ajudou a leitura nesta antiga edição da Presença. As ideias são importantes, a construção da narrativa é interessante, mas monótona.

domingo, 23 de maio de 2021

27. Venezuela, Karina Sanz Borgo, Cai a noite em Caracas

 Venezuela, Karina Sanz Borgo, Cai a noite em Caracas


Este livro é um murro no estômago, chega-se ao fim com  uma sensação de sufoco como se tivéssemos estado lá. 

A nossa protagonista é Adelaida Falcón, de 38 anos. Trabalha como tradutora, tendo uma atividade limitada, devido ao estado de revolução. Acabou de enterrar a mãe, vítima de cancro, que a falta de dinheiro não deixou tratar melhor, ou minorar o sofrimento. Também para o enterro é necessário despender uma soma imensa de dinheiro que Adelaida custa a reunir, deixando-a sem nada nem ninguém, numa cidade imersa em violência. 

Ao regressar a casa, encontra-a ocupada por um grupo de mulheres, «revolucionárias» à ordem do regime. Procura refúgio em casa de uma vizinha a quem todos chamam «a filha da espanhola»; encontra-a morta em casa e a uma carta que informa Aurora Peralta da autorização para um passaporte espanhol. Sem saber o que fazer, Adelaida tece uma forma de se escapar de uma cidade em estado de sítio onde não vislumbra futuro. 

É um livro sufocante, em que nos colocamos perfeitamente no lugar da protagonista e pensamos: e se fosse connosco? Que partes deste romance são reais ou não? A autora acrescenta uma informação referindo que tudo é ficção. No entanto, parece-me, pelo que li e investiguei, que este romance será baseado em factos reais, o que o torna mais assustador. A Venezuela que tantos emigrantes nossos atraiu, em tempos, está novamente em desagregação. Li comentários no Goodreads que chamam «propaganda» a este livro. É um romance com uma escrita clara, um ritmo envolvente e um assunto que me tocou. 


34 - Colômbia, Pilar Quintana, A cadela

 Colômbia, Pilar Quintana, A cadela

Pilar Quintana é uma escritora colombiana. Nasceu em Cali, em 1972, e estudou na Universidade Javeriana em Bogota. É conhecida pela novela «A cadela», que ganhou o IV prémio da Biblioteca de Narrativa Colombiana, e «Coleccionistas de polvos raros», que ganhou o Prémio La Mar de Letras. Em 2007, foi escolhida como uma das 39 vozes da literatura latino americana com menos de 39 anos. 

«A cadela» foi-me emprestado por uma colega que me disse que era um contributo para a minha lista. É um livro pequenino, que se lê num fôlego. 

O cenário é a selva, luxuriante e opressiva; a forma de vida é de pobreza. Sentimos o calor, a humidade e os insetos, bem como a precaridade da vida. Damaris vive com o marido Rogélio numa cabana perto de uma casa de férias de uma família que há mais de 20 anos não regressa. Ela faz limpezas, cuida da casa grande e ele é pescador; por vezes, caça na selva. Próximos dos 40, não tiveram filhos e isso afastou-os. A relação tornou-se difícil e amarga, pois tinha-se tornado uma obsessão para ela e as visitas sem êxito a curandeiros entristecem-nos.
Um dia, Damaris adota uma cadela a quem dá o nome que tinha escolhido para uma filha, Chirli. Vamos vendo como educa a cadela e como a trata, mesmo depois do desgosto que lhe dá ao fugir. Aquela cadela não se porta como ela tinha idealizado. As suas fugas
transtornam-na. A forma como lida com o comportamento da cadela é estranha e quase absurda. Aproxima-se e afasta-se. 
Ficamos a conhecer um pouco da vida difícil das pessoas desta zona, perto da costa colombiana do Pacífico. Os mercadinhos, os pratos quotidianos de peixe, a vida dura, as festas. O que retenho mais é o clima tropical húmido, que torna o ambiente opressivo, a vida difícil e as pessoas nem sempre simpáticas. Linguagem fácil e expressiva. Gostaria que o final fosse diferente, pois parece que fica algo para dizer. No entanto, talvez a vida daquelas pessoas seja apenas assim, monótona e dura, com episódios como o da cadela de vez em quando.

terça-feira, 18 de maio de 2021

21 - Síria, Yusra Mardini, Mariposa


Síria, Yusra Mardini, Mariposa

Este foi um dos primeiros livros que comprei de propósito para o projeto Ler mulheres à volta do mundo. Não sabia grande coisa sobre a Síria e tinha lido uma crítica interessante sobre este livro.

Foi uma  leitura fácil e rápida de não ficção. Yusra Mardini conta como era a sua vida na Síria antes de ter de deixar o seu país para evitar os bombardeamentos e o sentimento de insegurança que impedia qualquer ideia de futuro ou esperança. Yusra era uma jovem normal, que vivia uma vida semelhante à de qualquer jovem em qualquer parte do mundo. Saia com amigos, ia a festas, praticava desporto. Aliás, toda a família o fazia: o pai era treinador de natação e ela e a irmã mais velha Sara eram nadadoras. Nem todos compreendiam o esforço e trabalho necessários e ela própria quase desistiu. No entanto, foi o que a salvou durante a fuga para a Europa. Após muitos dos seus parentes e amigos terem saído do país, Ysra e a irã mais velha decidem também fazê-lo na companhia de um primo. Vão de avião para a Turquia e aí têm de apanhar um barco para a Grécia. É aí que sucede o episódio que havia de a tornar conhecida e que ela desvaloriza. Depois de muito esperarem por um barco, ele fica rapidamente superlotado. A meio do trajeto, a sua irmã resolve sair e nadar e ela acompanha-a, de forma a contribuir para  sua estabilidade e evitar que se afunde. Rapidamente outros dos refugiados fizeram o mesmo. No entanto, tendo ela 17 anos, esse seu ato fica registado. Ela apenas diz «sou uma nadadora. Havia de deixar a minha irmã sozinha?». O percurso dos ocupantes desse bote segue pela Grécia até Berlim. Depois, conhecemos o resto da história até ao seu trabalho com refugiados e como integrante da equipa olímpica de refugiados. 

Para além do relato da fuga para a Europa, com todos os momentos dramáticos incluídos, há um espírito de superação e resiliência que deveria ser o de todos, aliados à tolerância e à visão positiva da vida. «Rir é melhor do que chorar». Uma  leitura que contribui para acreditarmos nas possibilidades do ser humano.

Em relação à Síria, li sobre o país, sobre tudo o que lá acontece e sobre a história do país. Depois, li, por acaso, O mapa de sal e estrelas, de Zeyn Joukhadar (texto em breve), que alia uma história de refugiados a uma história de viagens durante a Idade Média que nos traz um fantástico toque das Mil e uma Noites. No entanto, nuca conseguirei compreender todas as guerras existentes neste Médio Oriente que tanto me fascina. 


32 - Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories

Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories

Esta leitura aconteceu de uma maneira engraçada; a amiga que me deu A porta referiu como no Butão já tinham vacinado toda a população adulta ou algo do género. E acrescentou «porque não lês algo do Butão?». Supostamente, é o país com o maior índice de felicidade do mundo. Começámos as duas à procura e já nem sei como encontrámos esta autora. Depois, agradou-me imenso a capa do livro e comprei-o em inglês na Amazon, para o Kindle. Com as minhas verbas, já agora. 

A autora, Kuzang Choden, nasceu em 1952 no centro do Butão e foi estudar para a Índia, Darjeeling, com cerca de nove anos. Depois, estudou em Delhi, psicologia, e foi tirar um MBA no Nebraska, USA. Trabalhou como professora no Butão e, a partir de 1990, começou a escrever contos tradicionais do seu país e recolhas do oral; foi a primeira mulher do Butão a publicar um romance em inglês e continua a pesquisar as tradições do seu país; vive com o marido em Thimphu e tem esse ar simpático da foto retirada do Goodreads que é de 2015. Desde 2014 é a representante do Butão na ONU.


Chamou-nos a atenção o livro The Circle of Karma (de 2007), mas não me senti com coragem de ler um livro tão grande em inglês (437 páginas). Depois disso, descobri que existe em francês, Le cercle du karma, foi traduzido em várias línguas, e hei de lê-lo. Lá está, tão pouco tempo, tantos livros por aí...

O livro que li, Tales in Colours and Other Stories é um livro de contos. Fala-nos das novas realidades que as mulheres do Butão enfrentam, das suas escolhas e experiências. 

«Bhutanese women have always enjoyed a comparatively favourable status on a regional context as they have never suffered many of the gender based prejudices and discriminations endured by their sisters in the South Asian Region. We are now at a crucial stage in our transition and we must not let go of our hold on our traditional archetypes of strong and independent women. »
Após esta citação inicial, vamos contactar com o modo de vida no Butão em onze contos. Uns são mais interessantes do que outros, mas todos me falaram de uma realidade completamente diferente da minha.
No primeiro conto, a narradora conta-nos o impacto que teve, aos nove anos, quando em Delhi, no colégio de freiras para onde tinha ido estudar, uma das madres pôs em causa o seu nome face ao do pai, porque o seu último nome era igual ao primeiro do pai e isso não fazia sentido... Oseu nome, Kuzang, significa «perfeito» e Choden significa «abençoado». O pai chamava-se Kuzang Dorji, «perfeito» e «indestrutível». Ora, explica a narradora/autora, no Butão os nomes não têm género, não se herda o nome do pai/família e as mulheres herdam as terras da mãe. Aquele choque cultural ficou-lhe certamente na memória.
Depois disto, vamos lendo contos onde o trabalho árduo e o sofrimento das mulheres são visíveis, sem que, no entanto, haja uma diferença por serem mulheres, a vida é que é mesmo dura. Hoje, a propósito de nada, um dos meus alunos informou-me que no Butão apenas existe uma estrada... Aquele índice de felicidade deve ser discutível para nós, ocidentais mal habituados e mimados...
Nos diversos contos, são narrados episódios mais ou menos longos da vida de algumas mulheres, destacando aspetos diversos, como a religião e o que ela pode favorecer ou prejudicar, o contraste da vida rural e a urbana, o modo de vida das novas gerações.
Os meus contos preferidos foram «Look at her belly bottom» e «Tales in colours». O primeiro fala de uma jovem mulher que ajuda na pior função que a mãe tem e já não tem forças para exercer: a recolha do estrume dos seus currais e o seu transporte para os campos para ser usado como fertilizante. Destaca-se a dureza do trabalho, o quanto lhe custa, mas como custaria mais à mãe sem quem ela «não se imagina a viver». Tsewng Doma, a jovem (e os nomes não me ficaram minimamente na memória), tem outra faceta na sua vida: vai, periodicamente, visitar a irmã e o cunhado à cidade de Thimphu (ou Thimpu), a capital. Aí, ela descobriu como era fácil a vida numa casa com dois quartos, água canalizada (não ter de ir para a fila buscar água e carregá-la!) e eletricidade. Descobre a televisão e algumas vaidades femininas: tratar da pele e do cabelo, pintar as unhas e, por último, colocar um piercing no umbigo, como viu na tv! Esta última ação torna-a especial na sua aldeia e confere-lhe uma autoestima e satisfação que a ajudam na árdua vida rural. Ela ganha poder ao descobrir como lidar com o espaço urbano. Gostei imenso!
O outro conto fala-nos de Tsheringmo, uma experiente colorista de lã, que ensina os seus segredos a Kencho e Rinchem Dolma, de forma a que este conhecimento não se perca. Entre as técnicas e os materiais usados para tingir a lã, são também transmitidas lendas e superstições. Quando a idade traz a demência e o esquecimento à velha artesã, as antigas aprendizas, agora mulheres experientes, tratam dela e acarinham-na, mesmo ela não conseguindo discernir as suas identidades. A solidariedade feminina é uma constante na maioria dos contos.
Para além das duras tarefas rurais e a algumas condições de vida a que, no mínimo, chamaríamos primitivas, também há destaque de alguns hábitos sociais, como alguma tolerância para as relações amorosas e infidelidades (mais para os homens, mas também para as mulheres, que têm filhos fora do casamento e não são olhadas de lado). Muito interessante o contacto com este país tão distante e diferente. A leitura em inglês é sempre mais lenta, para mim, e tenho muitas dúvidas sobre a validade da pontuação quase ausente nas histórias.


quinta-feira, 13 de maio de 2021

11 - Itália, Elsa Morante, A ilha de Arturo

Elsa Morante nasceu em Roma em 18 de agosto de 1912 e morreu em 25 de novembro de 1984. Começou a escrever contos em várias publicações, incluindo publicações infantis nos anos 30. O seu primeiro livro de contos foi publicado em 1941, Il Gioco Secreto. Nesse ano casou com o escritor italiano Alberto Moravia através do qual contactou com uma variedade de gente das letras e cinema. O seu livro mais famoso é La storia, passado num período da II Guerra.

A ilha de Arturo foi-me aconselhado no final do primeiro ano da faculdade, quando pedi sugestões de leitura a uma das professoras de Introdução aos Estudos Literários. Na altura, ficou fora do meu orçamento da Feira do Livro e nunca mais o tinha voltado a ver. Encontrei-o numa promoção há uns três ou quatro anos e ainda não o tinha lido. A professora que mo tinha recomendado falou-me da paz que transmitia (tal como alguns dos outros sugeridos, de que apenas recordo agora O livro de San Michele, de Axel Munthe).

Este livro custou-me a ler. Tem uma prosa muito poética, cheia de belas imagens, estabelece um tempo próprio, um ritmo lento e encantatório, o que nem sempre ajuda a uma leitura rápida. O livro foi publicado em 1957 e situa-se nos anos antes da II Guerra. 

Arturo é órfão de mãe desde o nascimento e vive em grande liberdade e de forma selvagem na ilha da Prócida perto de Nápoles. O seu pai é o seu herói e modelo, completamente idealizado, mas ausenta-se durante longos períodos de tempo para parte incerta e em atividades ignoradas. Educado por um criado e deixado livre desde cedo, vagabundeia pela ilha, inebriado por leituras e sonhos de heroísmo. Um dia, o pai traz com ele a nova esposa de 17 anos, a quem Arturo, de quase 15, acaba por se afeiçoar. Estes sentimentos vão provocar um tumulto que obriga Arturo a tomar certas decisões, nem sempre acertadas. A formação afetiva de Arturo não se faz de forma fácil e sofre algumas desilusões, nomeadamente com o pai, que de ideal pouco tem. Espera-o uma certa fuga a um paraíso que o avançar na adolescência estragou. O ambiente é irreal e ideal, tendo-me levado a pesquisar sobre a Prócida, de que nunca tinha ouvido falar. O ambiente social é pobre, os hábitos rústicos e algo primitivos. A vida das mulheres é estereotipada, ou aquilo que se esperava das mulheres na altura: tratar das crianças (pouco, são deixadas à vontade), da casa e da comida. No entanto, a avó de Arturo, alemã e professora, escapa desta ideia, sendo, no entanto, pouco simpática.

Para além da leitura lenta, também me agradaria saber mais sobre o pai e sobre o futuro das personagens.
Para quem associa este livro a Ferrante, nada tem a ver, além da época e área geográfica. Morante tem uma escrita encantatória que nada tem das violências de Ferrante. No entanto, os sentimentos que acabam por explodir são violentos, porque se trata da aprendizagem de um jovem. É um romance de aprendizagem, afinal de contas.
Creio que esta leitura é apenas satisfatória e não a considerei boa ou excelente. No entanto, a poesia da escrita coaduna-se com o espaço.


quarta-feira, 12 de maio de 2021

19 - Líbano, Maha Ahktar, Mel e amêndoas

Maha Aktar nasceu em Beirute em 1962 e vive nos EUA. É escritora e jornalista. Tem uma forte relação com a Andaluzia, pois foi bailarina de flamenco. Escreveu livros sobre os seus antepassados líbios, destacando-se A neta da Mahrani, o seu livro de estreia, em 2009. O livro que li é de 2012, numa edição brasileira da Planeta do Brasil.

Foi a capa da edição que me atraiu. Sugere um espaço agradável, feminino, que inspira confidências.

No entanto, este livro começa de forma pouco auspiciosa, lembrando uma novela cheia de gente fútil e vazia, mas vai-se compondo. Através do salão de beleza Cleópatra, numa Beirute a reconstruir-se (depois da guerra de 2006 com o Hezbollah), acompanhamos Mouna, que tenta manter o seu salão aberto e sustentar a mãe e a tia após perder todo o resto da família num bombardeamento. O seu sonho é casar e ser sustentada. No entanto, após algumas desilusões, começa a afirmar-se e a ganhar confiança em si própria. De mulher fútil e namoradeira, vai passar a ter algum amor próprio e a ser uma pessoa mais interessante. 

Neste salão, vão cruzar-se por acaso algumas outras mulheres cujas vidas iremos descobrir: Imaan, embaixadora do Líbano no exterior, mulher poderosa que se debate com um casamento infeliz; Nina, a órfã que singrou na vida trabalhando com afinco; Lailah, a filha de um rico empresário e antiga miss, com um casamento de fachada e uma vida fútil e vazia; Nadine, a filha de um diplomata, casada por amor com alguém pouco valorizado; Amal, a misteriosa empregada de Mouna e sua trágica história. 


Entre as tradições e a modernidade de um país devastado por uma guerra que nunca termina, com campos de refugiados sírios e problemas sem resolução à vista, dividido pelas várias religiões, aprendemos um pouco sobre um país que era sofisticado e avançado e passou por uma guerra cujas marcas nunca desaparecerão. A pobreza de alguns, a corrupção e o luxo e ostentação de outros coexistem. As personagens são ricas e interessantes, apesar de algumas serem um pouco incompletas ou mudarem de forma pouco natural. Os estereótipos são muitos, especialmente no caso das personagens masculinas. Quanto a mim, há personagens a mais, o que se torna por vezes confuso, algumas têm pouca importância e há pormenores que ficam esquecidos. Os ambientes são ricos, há referências a comidas, confusão de rua e pormenores cativantes e estes aspetos agradaram-me. Apesar de não ser uma obra p
rima, desperta interesse e lê-se facilmente. Há muitas personagens femininas fortes que suscitam curiosidade sobre o que lhes vai acontecer. Pela negativa, muito glamour e futilidade num país em ruínas.


Líbano aqui

sábado, 8 de maio de 2021

31 - Hungria, Magda Szabó, A porta

 Hungria, Magda Szabó, A porta

Magda Szabó foi uma escritora húngara nascida em 5 de outubro de 1917 e falecida em 19 de novembro de 2007. É indiscutivelmente a romancista húngara mais conhecida; também escreveu drama, poesia e memórias, entre outros. Foi professora de latim e húngaro. Esteve dez anos sem poder publicar devido ao regime estalinista. Recebeu vários prémios, dos quais se destaca o Femina Étranger em 2003.

Este foi um dos livros que me «escolheu». Recebi-o como prenda de aniversário de uma amiga que quis colaborar neste projeto (sintam-se todos livres de o fazer...). Tinha lido umas coisas sobre ele e desconfiei do título. O que contaria um livro sobre uma porta que deixasse todos encantados? Parecia-me estranho... A edição, da Cavalo de Ferro, tem um toque macio, aveludado, que a torna cativante. Sem grandes ideias, comecei a leitura e logo me senti desafiada com a conversa inicial sobre sonhos e sobre como querendo salvar Emerence tinha provocado a sua morte... 

Este livro conta-nos, na primeira pessoa, o quotidiano de uma jovem, mas não tão jovem escritora, que se mudou com o marido para uma casa maior ao ter sucesso e precisa daquilo a que nós chamaríamos de forma jocosa «gestora do lar». Recomendam-lhe Emerence, que não se apressa a aceitar o trabalho: ela precisa de observar os possíveis patrões e o serviço. Precisa de referências. É assim que Emerence entra na vida desta mulher. É uma empregada fora do normal, que faz o que é preciso, mas nem sempre da maneira mais convencional. Mantém a individualidade e não quer intimidades. Uma das regras que impõe a todos é que ninguém ultrapasse a porta da sua casa, recebendo até a sua pouca família no espaço exterior da sua casa... A sua história irá desvendar-se pouco a pouco e o leitora fica enredado na personalidade tão própria desta mulher (eu fiquei, apesar de ela não ser especialmente cativante: é um pouco assustadora). O quotidiano da narradora, o cão crismado Viola pela empregada, os gatos secretos desta, as vivências numa Hungria de que pouco ou nada conhecia são os ingredientes de um romance imperdível, um dos melhores lidos até agora nesta projeto. 

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33 - Malawi, Upile Chisala, soft magic

 Malawi, Upile Chisala, soft magic

Upile Chisala é uma contadora de histórias, ativista e socióloga do Malawi. Nasceu em 1994 e cresceu em Zomba, a terceira cidade do país. Um dos seus objetivos é contar histórias que lhe permitam e aos outros fazer as pazes com o passado, celebrar o presente e sonhar com o futuro. A sua poesia pareceu-me clara e acessível. 

O livro que li, soft magic, é um livro pequeno e que se lê e relê facilmente. Transmite, acima de tudo, uma preocupação com a afirmação da mulher negra: ela é capaz, é suficiente, merece o melhor. Fala sobre as suas características e o que merece. Não deve contentar-se com os mínimos, pois é merecedora de tudo. Tirando as menções à cor da pele, é uma poesia cuja temática se aplica a qualquer mulher, pois todas nós deveríamos exigir tudo o que for necessário para a nossa felicidade. Não transmite nada que represente em especial o Malawi, mostrando até uma consciência universal feminina. É interessante encontrar uma poesia que uma das nossas poetas contemporâneas poderia apresentar.

Podem ler aqui exemplos de poemas.

Mais sobre o país:

O Malawi é um país que fica na África Oriental, nas margens do lago com o mesmo nome (antigamente designado Niassa) e é independente do Reino Unido desde 1964. A sua capital é Lilongué ou Lilongwe, cidade que tem um polo industrial relacionado com agricultura e turismo.É um país sem costa marítima, mas com um setor pesqueiro desenvolvido, devido à existência de vários lagos com abundância de peixe.  O país é fortemente agrícola, mas tem algum turismo. A população jovem é encorajada a estudar no exterior e havia alguns protocolos estabelecidos com os EUA que, no entanto, se foram degradando. Em 2005 era considerado pelo FMI o país mais pobre do mundo. 






© Hans Hillewaert


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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Lista do projeto em curso

A lista conduz cada título destacado ao respetivo post desde que ele exista.  

Nota - alguns títulos serão substituídos no momento em que achar outro mais adequado (por exemplo, tenho Carmen Posadas como autora do Uruguai porque é essa a sua origem; no entanto, neste romance fala-se de um quotidiano passado em Espanha e mais adequado para este país. Também comecei por ler Leila Slimani para Marrocos, mas optei por classificar o seu romance como francês - já o novo romance será certamente associado a Marrocos). Todos terão uma postagem associada com recensão. 

Lidos nos últimos 5 anos – início: janeiro 2019

1. Malásia, Dinah Jefferies, O silêncio da chuva de verão, janeiro de 2019;

2. Suécia, Camilla Lackberg, A menina na floresta, janeiro de 2019;

3. Irlanda, Lucinda Riley, A irmã da pérola, janeiro de 2019;

4. EUA, Michelle Obama, Becoming, janeiro de 2019; Marion Zimmer Bradley, Salto Mortal, março de 2021;

5. Austrália, Liane Moriarty, Pequenas grandes mentiras, janeiro de 2019;

6Portugal, Sónia Serrano, Mulheres Viajantes, fevereiro de 2019;

7. Inglaterra, Caroline Graham, Morte em palco, fevereiro 2019; Bernardine Evaristo, Rapariga, mulher, outra, março de 2021; Raúf Q. Onjali, O rapaz ao fundo da sala, abril 2021; 

8Nigéria, Chimamanda Ngozi Adichie, Todos devemos ser feministas, março 2019; 

9Espanha, Natalia Sanmartín Fenollera, O despertar da menina Prim, maio de 2019; Rosa Montero, A carne, agosto de 2021;

10. França, Laetitia Colombani, A trança, junho de 2019; Leïla Slimani, Canção doce, março de 2021;

11. Itália, Rosa Ventrella, História de uma família decente, julho 2019; Elena Ferrante, A vida mentirosa dos adultos, dezembro 2020; Elsa Morante, A ilha de Arturo, março/abril de 2021; 

12. Islândia, Yrsa Sigurdardottir, Alguém para tomar conta de mim, setembro de 2019;

13.  Russia, Ayn Rand, Cântico, novembro 2019;

14.  Polónia, Olga Tokarczuk, Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, dezembro de 2019;

15Chile, Isabel Allende, Longa pétala de mar, dezembro de 2019; Mulheres da minha alma, dezembro de 2020;

16.  Uruguai, Carmen Posadas, A mestra de marionetas, abril de 2020;

17.  Bélgica, Amélie Nothomb, Le Crime do Comte Neville, janeiro de 2021;

18. México, Mariana Enríquez, As coisas que perdemos no fogo, fevereiro de 2021;

     19.  Líbano, Maha Akhtar, Mel e amêndoas, março de 2021;

    20. Noruega, Maja Lunde, A história das abelhas, março de 2021; Karin Fossum, A noiva indiana, março de 2021;

     21.  Síria, Yusra Mardini, Mariposa, março de 2021;

   22.  Finlândia, Sofi Oksanen, Norma, março de 2021; Salla Simukka, Vermelho como o sangue, março 2021;

     23.  Irão, Marjane Satrapi, Persépolis, março de 2021;

     24.  China, Xinran Xue, As boas mulheres da China – vozes ocultas, março de 2021;

     25.  Brasil, Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão, março de 2021;

    26. Canadá, Karen Levine, A mala de Hana, março de 2021; Margret Atwood, A odisseia de Penélope, março de 2021;

     27 . Venezuela, Karina Sanz Borgo, Cai a noite em Caracas, março de 2021;

     28. Coreia do Sul, Min Jin Lee, Pachinko, abril de 2021;

     29. Omã, Jokha Alharti, Corpos celestes, abril de 2021;

     30. Índia, Thrity Umgard, Bombaim - A distância entre nós, abril de 2021;

     31. Hungria, Magda Szabó, A porta, abril de 2021;

     32. Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories, abril/maio 2021;

     33. Malawi, Upile Chisala, soft magic, maio 2021;

     34.  Colômbia, Pilar Quintana, A cadela, maio de 2021;

     35Singapura, Balli Kaur Jaswal, A vida secreta das viúvas panjabi, maio de 2021;Jesse Q. Sutanto, Liga às tias, outubro de 2022

     36. África do Sul, Nadine Gordimer, A história de meu filho, maio de 2021;

     37.Turquia, Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho, junho de 2021;

     38. Filipinas, Mia Alvar, In the Country: Stories (contos «Kontrabida» e «The Miracle Worker»), julho de 2021;

     39. Marrocos, Leila Slimani, O país dos outros, julho de 2021; Comment j'écris, maio de 2022; Vejam como dançamos, abril de 2023;

     40.  Alemanha, Angelika Schrobsdorff, Tu não és como as outras mães, julho de 2021;

     41. Japão, Kanae Minato, Confissões, julho de 2021; 

     42. Argentina, Claudia Piñeiro, Uma pequena sorte, agosto de 2021;

     43. Países Baixos, Marieke Lucas Rijneveld, O desassossego da noite, agosto de 2021;

     44.    Moçambique, Pauline Chiziane, Balada de amor ao vento, outubro de 2021; 

     45.     Eslováquia, Jana Benová, Manual de despedidas (incompleto)    

     46.     Chipre, Eve Makis, Eat, Drink and Be Maried (incompleto)

    47. Dinamarca, Janne Teller, Nada, novembro de 2021; Katrine Engberg, A inquilina, fevereiro de 2022; 

    48.     Senegal, Mariama Bâ, Une si longue lettre, maio de 2022;

    49.     Geórgia, Nana Ekvtimishvili, Onde caem as peras, junho de 2022

    50.    Vietaname, Loan Le, Uma história de amor agridoce, outubro de 2022

    51.    Burkina Faso. Roukiata Ouedraogo, Du miel sous les galettes, fevereiro de 2023

    52.     Irlanda, Emma Donoghue, A dança das estrelas, maio de 2023;

    53.  Serra Leoa, Namina Forma, As mulheres douradas, junho de 2023;

    54.  Suiça, Annemarie Schwarzenbach, Ver uma mulher, junho de 2023;  




 

Ler mulheres à volta do mundo

Ler mulheres à volta do mundo é um projeto inspirado pelo blog A mulher que ama livros e pelo seu desafio «Do quarto para o mundo». O artigo da Virginia Wolf já era meu conhecido e fiquei com a ideia na cabeça. Depois, descobri o Viaggiando. E a ideia foi tomando forma. 

Muitas vezes li alguma coisa e pensei «olha, era uma leitura mesmo para aquele desafio...» e um dia (não muito distante) resolvi-me a fazer listas e a resumir ideias. 

Então, a ideia é ler um livro escrito por uma mulher em cada país do mundo. E quantos são os países do mundo? Lá veio um problema; a Camila reúne 198, a Cláudia 196. No blog fantástico (e de que apenas li algumas coisas) A Year of Reading the World, Ann Morgan apresenta 196 países. A ONU reconhece 193 países. Entre estes números, ainda há muito que ler. Lerei livros dos 193 países e dos estados observadores (Palestina e Vaticano) e dos países não reconhecidos (Kosovo, Taiwan e Saara Ocidental). 193 será o número mínimo, 198 o máximo. 

Uma outra questão era: e existem mulheres que escrevem em todo o mundo? Num país marcadamente muçulmano e gerido pelo patriarcado, por exemplo? É isso que pretendo descobrir. 

E que tipos de livros? Em princípio, algum que me diga algo sobre o país e os seus hábitos, ou sobre as mulheres daquele país e a sua forma de vida. Em última análise, algo sobre o país em geral. Um romance, um conto, um livro de não ficção que traduza alguma preocupação estética. Numa língua que eu consiga ler, em português, francês, mas também inglês ou espanhol.

A divulgação tem sido feita na minha conta do Instagram e por aí, via Facebook mesmo. E os amigos (e alguns alunos...) são enfastiados ao vivo mesmo... Aqui vou organizar o que já li e o que vou ler. Queria ter tudo organizado e lindinho, mas a desarrumação é minha parceira.

Como escolher os países? Camila tira à sorte, ideia gira. Aqui, será ao sabor do vento; segundo o que me aparecer, o que me for sugerido, o que me apetecer... Afinal, é mesmo ler o que me apetece.

Lista de países aqui. Lista de leituras aqui.

domingo, 2 de maio de 2021

Leituras do mês - Abril 2021

 Leituras de abril (do fim para o início):

- Magda Szabó, A porta, 5* (Hungria DLM);
- Zeyn Joukhadar, O mapa de sala e estrelas, Zeyn Joukhadar 5*;
- Thrity Umrigar, Bombaim, a um mundo de distância (ou A distância entre nós), 4* (Índia, DLM);
- Herman Melville, Bartleby, 4*;
- Íris Bravo, A nova Índia (3*) e A terceira índia (4*);
- Jokha Alharti, Corpos celestes 3,5* (Omã, DLM);
- Min Jin Lee, Pachinko, 5* (Coreia do Sul, DLM);
- Harlan Coben, Darkest Fear (Bolitar #7), 3*;
- Onjali Q. Raúlf, O rapaz ao fundo da sala, 4*;
- Nina George, O livro dos sonhos, 3*.
Foi um mês com boas leituras, especialmente no início e fim.
Voltei à escola, li muito menos, mas, mesmo assim, foi melhor do que eu pensava. «Risquei» 3 países do desafio Ler Mulheres e começo a pensar que devo realmente ter um blogue para registar essas leituras e as pesquisas que vou fazendo, mas o tempo não me chega para tudo. Há também uma certa anarquia na maneira como tenho mostrado essas leituras, geralmente no Insta, por isso sentir falta de um local de organização.
Li uma autora portuguesa, Íris Bravo, e apesar de não ser muito o meu tipo preferido de leitura, achei ótimo que se publique e sejam divulgados livros de novos autores portugueses. A revisão deixa um bocado a desejar, mas a escrita é fluida, ainda que tenha alguns clichês.
O meu preferido do mês foi, sem dúvida, O mapa de sal e estrelas. Muito, muito bom! Como alguém disse hoje, as minhas leituras tiveram a ver com refugiados e com a Índia/índias... Além disso, também houve a temática das empregadas domésticas...
😉
(isto é mais uma «private joke»...)
No próximo mês, depois de acabar o livro de contos do Butão que ando a ler e, apesar de querer dedicar tempo às leituras do DLM e ler autoras africanas, quero ler alguns policiais e tenho 2 romances de lado, mas tenho a certeza de que vou andar ao sabor do momento e ler o que me apetece e o que me aparece, como é costume...

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