sexta-feira, 18 de junho de 2021

29. Omã, Jokha Alharti, Corpos celestes

 Omã, Jokha Alharti, Corpos celestes, lido em abril de 2021.

Esta leitura começou com o desafio. Em resposta à pergunta «Há escritoras em todos os países?», feita num dos encontros da página «Ler o que nos apetece» veio aquela resposta da praxe «Há países muçulmanos em que as escritoras devem ter pouca visibilidade. Acham que alguma mulher escreve em Omã?» e eis que, afinal, havia um livro já lido por uma das presentes, este de que vou falar... 



A autora, Jokka Alharthi, nascida em 1978, é escritora e professora na Universidade Sultão Qaboos. Cresceu e estudou em Omã e no Reino Unido e obteve um PHD em Literaturas Árabes Clássicas em Edimburgo. Ganhou o Man Booker  International Prize em 2019. Tem mais alguns livros de contos publicados.


Este livro é estranho e não foi muito fácil de ler. Fala da forma de viver num sítio de que pouco sabia (fiz uma pesquisa antes de ler) e fornece pormenores sobre o casamento, o parto, o quotidiano. Seguimos os passos de três irmãs, mas cada capítulo é escrito ou com um narrador de primeira pessoa ou focando uma das personagens; para além de Mayva, Kawla e Asma, as três irmãs, detemo-nos em Abdallah, o noivo/marido de Mayva, Zarifa, a escrava/criada que o criou, London (a primeira filha de Mayva), Azzan (pai de Mayva), Salima (sua mulher) e Qamar, sua amante beduína. Estas são as personagens mais desenvolvidas, mas aparecem outras. Algumas não têm muta profundidade.
Todas estas personagens se movimentam como corpos celestes no universo, cruzando-se e afastando-se na sua trajetória. O meu problema foi a ausência de uma conclusão que criasse maior coesão, pois a ligação é feita, mas o desenlace é vago, talvez porque o universo está em constante movimento e mutação. A escrita é poética e estranha, com diálogos sem as indicações gráficas habituais, mas sem serem à moda de Saramago. Fiquei com vontade de saber mais sobre estas mulheres. Por causa de Zarifa, por exemplo, aprendemos sobre a vinda da sua mãe como filha de uma escrava para aquela casa e vemos como aquela se tornou tão importante para a família do comerciante Sulayman. Assistimos ao parto da filha de Mayva, London, que se torna médica, mostrando a modernidade de uma sociedade que, paradoxalmente, continua a ser tradicional. Acompanhamos um pouco de três gerações neste país, em zonas que ora parecem muito rurais, ora nos trazem algo de cosmopolita. Dei-lhe 
3,5⭐ no Goodreads, mas achei que lhe faltou, de facto, uma conclusão unificadora.
Ainda bem que temos traduções portuguesas de livros de partes mais distantes do mundo!


37.Turquia, Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho

 Turquia, Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho, junho de 2021;

Visitei a Turquia em 1998. Foi a minha primeira viagem grande organizada, com um grupo. Foi a primeira viagem para fora da Europa. Não sabia nada da Turquia e adorei. Adorei a história, a cultura, os cheiros, as pessoas. Tive um momento de empatia com uma senhora idosa num ponto em que se compravam traquitanas e onde comprei umas candeias que devem já ter alumiado a casa de alguém. Olhámos uma para a outra bem nos olhos e passámos a mão pela face alheia enquanto sorríamos. Houve outros momentos mágicos, como a visita à Cisterna de Istambul ao som de música, molhar os pés em Pamukkale, visitar a Capadócia (onde ainda não se faziam viagens de balão) e aterrar de emergência em Madrid (este não tão bom, apesar de ter um final feliz), mas aquele foi só meu. 
De qualquer forma, foi uma viagem que me ficou, por tantos motivos. Desde então, muita coisa se foi passando politicamente e é uma das viagens que não seria a mesma. Quando pensei em ler algo da Turquia, não sabia o que esperava encontrar de uma civilização antiga, mas tão cheia de viragens. Os tempos de Atatürk estão distantes. Li apenas um livro de Pamuk (de que gostei mais ou menos, apesar de me dizerem maravilhas de outros) e acho que não terei lido outros livros de autores turcos. 
Vi este livro por aí e foi mais um patrocinado por uma das minhas tias, no meu aniversário. Tem uma capa e um marcador lindíssimos, que remetem para ilustrações islâmicas de outros tempos.
A autora, Elif Safak, nasceu em 1971 em Estrasburgo, França. Escreve em turco e inglês. Publicou 17 livros, dos quais onze são romances, traduzidos em 50 línguas, e é uma das vozes mais importantes da literatura turca, combinando as tradições ocidentais e orientais da narrativa, tendo criado inúmeras histórias de mulheres, minorias, imigrantes, subculturas, juventude e almas globais. A sua escrita baseia-se em diversas culturas e tradições literárias, refletindo um interesse profundo por história, filosofia, cultura oral e política cultural. Shafak é doutorada em Ciências Políticas e lecionou em diversas universidades na Turquia, nos Estados Unidos e no Reino Unido. É membro do Conselho Global do Fórum Económico Mundial na Área de Economia Criativa e membro fundador do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR). Defensora dos direitos das mulheres, dos direitos dos LGBT e da liberdade de expressão, Elif Shafak é uma oradora pública inspiradora: participou duas vezes na plataforma global TED. TEve vários problemas com a censura no seu país, por divulgar terrorismo sexual, massacres da guerra com os curdos, entre outros. Quase foi presa pela temática do seu livro A bastarda de Istambul


Gostei imenso deste livro! Não sabia ao que vinha e fiquei agradavelmente surpreendida. Há um certo realismo mágico e uma ternura no tratamento das personagens que envolve e aconchega. A sinestesia está constantemente presente e ajuda-nos a estar na história.
Leila acabou de morrer. Durante 10 minutos e 38 segundos, as suas células agarram-se às recordações da sua vida. A um gosto, o do sal em que a submergiram em bebé. A melancia perfumada num verão. Ao borrego aquando do nascimento do irmão, quando tinha 7 anos. Ao café com cardamomo. Cada gosto ou cheiro traz um odor, uma situação, uma pessoa. É assim que vamos conhecer as histórias de Leila Tequila, prostituta de Istambul, fugida a uma família em que nem tudo era fácil, e dos seus cinco amigos, encontrados em meio de vicissitudes várias. Cada um dos minutos que se sucede à sua morte traz-nos lembranças doces ou dolorosas, a que nunca ficamos indiferentes. 
Depois desses 10 minutos e 38 segundos, vamos descobrir afinal o que aconteceu ao corpo de Leila e a forma como os seus amigos lhe prestam homenagem.
A par da história de Leila, está a cidade de Istambul (ou Istanbul), cidade considerada feminina pela autora, com a sua desorganização, o seu bulício, cheiros e cores, a quem é é dedicado este livro, bem como às suas habitantes. A forma como os seus habitantes vivem, especialmente as mulheres, é dura, mas cheia de cor. Fazemos uma viagem a esta cidade e ao seu movimento, à política, às diferentes formas de vida. Gostei, de facto, muito e quero ler outros livros desta autora. Esta história não é fácil, mas traz-nos informações culturais variadas e ricas. A forma criativa como está escrita cativa-nos (pelo menos, cativou-me).


quinta-feira, 10 de junho de 2021

28. Coreia do Sul, Min Jin Lee, Pachinko

 Coreia do Sul, Min Jin Lee, Pachinko; lido em abril de 2021. 

Min Jin Lee aqui.


História muito fácil de ler e que abrange 4 gerações de coreanos, as duas últimas a viver no Japão. Seguimos especialmente Sonja, que é filha de um homem deficiente, mas trabalhador e bondoso. Muito jovem e ingénua, envolve-se com um homem mais velho e engravida. Ele é casado com uma japonesa, mas quer sustentá-la e à criança, o que ela recusa taxativamente. Acaba por casar com um pastor católico que se interessa por ela e emigram para o Japão. Seguimos a sua vida, a dos seus filhos e do neto. É uma vida cheia de dificuldades, quer para Sonja, quer para o pastor, agredido por ter uma religião diferente e cujas boas intenções nem sempre são bem compreendidas. Mais tarde, também a mãe da Sonja vem para junto deles, pois na Coreia as coisas complicaram-se. Fiquei a saber mais sobre a divisão das Coreias do pós guerra e sobre a influência do Japão.

Como bolas numa máquina de Pachinko, as personagens sofrem os efeitos da vida, adaptando-se às circunstâncias. A certa altura, a mãe de Sonja diz que a vida das mulheres é apenas sofrimento. Estas mulheres são extremamente resilientes, autónomas e dinâmicas, multiplicando as poucas possibilidades das suas vidas. Vemos os efeitos da guerra, da crise, de serem apenas coreanas no Japão e tratadas sempre como seres menores, mas sem nunca desistirem. 
Algumas personagens são mais definidas do que outras e algumas das suas motivações mais claras também. No final, ficamos com vontade de saber mais do que vai acontecer àquelas pessoas.
Agora queria ler sobre quem tivesse ficado na Coreia... 
Finalista do National Book Award, tem edições e traduções em inúmeros países, com capas que considero belíssimas.


   


terça-feira, 1 de junho de 2021

25. Brasil, Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 Brasil, Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão. Lido em março de 2021

Martha Batalha é uma escritora e jornalista brasileira (Recife, 1973). Atualmente vive em Santa Mónica, Califórnia, com o marido e os dois filhos. Este é o seu primeiro livro, que foi adaptado ao cinema por Karim Ainouz em 2019 como A vida invisível. Depois deste publicou, em 2018, Nunca houve um castelo.

A história passa-se no Rio de Janeiro, nos anos 1940. Conta-nos a história de Eurídice, esposa exemplar, de G
uida, a irmã que fugiu de casa, e também de uma imensa lista de mulheres que a rodeiam e que representam algum tipo de mulher na sociedade. Inicia-se nos anos 40, quando era suposto as mulheres casarem e tratarem da casa e dos filhos, estando o trabalho reservado às mais pobres. Eurídice é inteligente e criativa e definha num lar onde cumpre mecanicamente as tarefas obrigatórias do quotidiano. No entanto, não deixa de tentar ir mais além...
 Nenhuma das duas irmãs parece feliz com as suas escolhas. 

Acompanhamos as aventuras e desventuras de Guida e Eurídice e somos apresentados a imensas personagens fascinantes: Zélia, a vizinha bisbilhoteira, e o seu pai Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.

Gostei muito deste livro, mas o fim deixou-me pendurada. Com uma escrita fresca e rápida, não podemos deixar de querer saber mais destas mulheres (os homens são bem menos interessantes) e do que lhes acontece. 

#Leituras do mês: maio de 2021

 Leituras de maio (desta vez, do início para o fim):

- Kuzang Kuzang, Tales in Colour and Other Stories (DLM - Butão), 4*
(contos de um país sobre o qual pouco sabemos e que está tão distante de nós como a Lua);
- Zeyn Joukhadar, O mapa de sal e estrelas, 5*
(livro do mês; entre a atualidade e uma família de sírios-americanos em fuga e uma Idade Média em que acompanhamos um grupo de cartógrafos numa viagem inversa, a descoberta de uma região que me fascina, o norte de África e a sua diversidade cultural);
- Lyssa Kay Adams, O clube do livro dos homens, 3*
(livro «guilty pleasure enquanto se classificam testes e se avaliam alunos. Como um clube de leitura de roamnces de época pode ajudar atletas a melhorar as suas vidas sentimentais e familiares. Hilariante em certas passagens.);
- Upile Chisala, soft magic (DLM - Malawi), 4*
(não sou muito de ler poesia. Esta é simples e intensa, poesia de uma mulher africana negra que fala de assuntos importantes para todas as mulheres em todo o lado. Ser suficiente, valer-se e afirmar-se.);
- Isabela Figueiredo, A gorda, 4*
(livro português do mês. Bem escrito, bem orientado);
- Christine Féret- Fleury, A rapariga que lia no metro, 3*
(leitura leve e pouco memorável);
- Nadine Gordimer, A história do meu filho, (DLM - África do Sul) 3*
(já aqui falei deste livro. Foi uma leitura que me custou. Trata de temas importantes e tenta um enquadramento social que me cortou o prazer de ler. A autora dizia que a sua ficção era importante para mudar o mundo, afirmação incontornável. Temática sobre o apartheid e caracterização de uma sociedade em luta, muitas vezes dentro da própria família.);
- Ruth Ware, A morte da Sra. Westaway, 5*
(policial cheio de cenários góticos e personagens misteriosas. Gostei muito, mas lembro-me de tão pouco...);
- Balli Kaur Jaswal, A vida secreta das viúvas panjabi (DLM - Singapura), 5*
(este livro foi uma boa surpresa. Fala de uma inglesa de origem indiana que tenta encontrar o seu rumo na vida e vai dar aulas a uma comunidade de indianas idosas e praticamente analfabetas. Tenta ensinar-lhes a escrever histórias e aprende ela muito mais. Tem partes comoventes e partes hilariantes e descobre-nos a vida de imigrantes.);
- Pilar Quintana, A cadela (LM - Colômbia), 3,5*
(ja aqui falei sobre ele. Panorama de uma Colômbia esmagada pela pobreza e pelo clima, sufocante e intensa, onde os sentimentos também são intensos e sufocantes.);
- Sophie Kinsella, Finding Audrey, 4*
(esta é uma das minhas autoras «light» de eleição. Este livro não é «light». Trata da depressão adolescente e da ansiedade social e de como pode tornar-se tão dominante. Tratando o assunto de uma forma despreocupada, vem trazê-lo a público e mostrar a sua importância. Audrey é uma jovem carismática e compreendemos que algo está na base de tudo aquilo que sente e percebemos que a ansiedade pode ser despoletada por qualquer coisa de muito simples. No entanto, como tem a ver com sentimentos do próprio, é extremamente difícil avaliá-la e mesmo compreendê-la. Porque somos todos diferentes e oque causa ansiedade nuns será plenamente aceitável para outros. Mais empatia precisa-se!)

Do que gostei mais? O mapa de sal e estrelas, adorei! Aconselho!

Ler mulheres à volta do mundo