sábado, 23 de outubro de 2021

44. Moçambique, Pauline Chiziane, Balada de amor ao vento



 Moçambique, Pauline Chiziane, Balada de amor ao vento, lido em outubro de 2021

Nem por acaso. Li esta autora no início do mês e ela recebe o Prémio Camões! 

Paulina Chiziane, de 66 anos, foi a primeira moçambicana a publicar um livro, este mesmo que li, em 1990. É um livro aparentemente simples e poético, com uma linguagem algo culta, mas interrompida por vocábulos locais, alguns merecendo uma nota, quanto a mim, para a compreensão da realidade ser meaior. Fala da condição da mulher numa sociedade muito machista.

Esta é a história de amor de Sarnau e Mwando. Sarnau fica deslumbrada pelo aluno dos padres jesuítas, que lhe corresponde e abandona o projeto de ser padre. No entanto, ela foi escolhida para casar com o rei Nguila e é isso que faz, até porque Mwando se afasta e casa também com uma rapariga de pele mais clara e rica. A vida de Sarnau não é tão boa como ela esperava, pois vive em poligamia e tem de partilhar o marido com outras mulheres, algumas nada bem intencionadas. Assim que engravida, é suplantada por Phati. É nessa altura que Sarnau volta a encontrar Mwando e o inevitável acontece...

No início, acompanhamos uma Sarnau adolescente, há conversas com amigas com o tom habitual. Assistimos a práticas da vida em comunidade, com o que têm de bom e mau. A certa altura, Sarnau reflete sobre a grande vantagem da poligamia: não há crianças órfãs nem abandonadas; pode não se sentir segura nem amada, mas os filhos poderão sempre contar com algum amparo. No entanto, na sua vida dura, vai aprender a contar consigo e com os filhos que entretanto terá. Os dois amantes voltarão a estar na mesma fase da vida ou terão perdido a sua oportunidade de vida a dois?
É uma história de uma vida em África ainda durante a colonização, em ambientes rurais, em que vacas são dadas como dote e têm de ser devolvidas caso o casamento se desfaça, uma sociedade de feitiçaria e hábitos ancestrais. Fala-se depois de viver numa cidade e de vender no mercado, da educação das crianças, do peso dos colonos. É interessante e poético, mas um pouco frangmentário, como uma balada cantada. É, como diz o título, uma espécie de canção sobre as voltas do amor. Gostei bastante, não me parece que tivesse lido algo semelhante e certamente lerei mais livros da autora. Podem saber mais sobre ela aqui e aqui.

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