sexta-feira, 18 de junho de 2021

37.Turquia, Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho

 Turquia, Elif Shafak, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho, junho de 2021;

Visitei a Turquia em 1998. Foi a minha primeira viagem grande organizada, com um grupo. Foi a primeira viagem para fora da Europa. Não sabia nada da Turquia e adorei. Adorei a história, a cultura, os cheiros, as pessoas. Tive um momento de empatia com uma senhora idosa num ponto em que se compravam traquitanas e onde comprei umas candeias que devem já ter alumiado a casa de alguém. Olhámos uma para a outra bem nos olhos e passámos a mão pela face alheia enquanto sorríamos. Houve outros momentos mágicos, como a visita à Cisterna de Istambul ao som de música, molhar os pés em Pamukkale, visitar a Capadócia (onde ainda não se faziam viagens de balão) e aterrar de emergência em Madrid (este não tão bom, apesar de ter um final feliz), mas aquele foi só meu. 
De qualquer forma, foi uma viagem que me ficou, por tantos motivos. Desde então, muita coisa se foi passando politicamente e é uma das viagens que não seria a mesma. Quando pensei em ler algo da Turquia, não sabia o que esperava encontrar de uma civilização antiga, mas tão cheia de viragens. Os tempos de Atatürk estão distantes. Li apenas um livro de Pamuk (de que gostei mais ou menos, apesar de me dizerem maravilhas de outros) e acho que não terei lido outros livros de autores turcos. 
Vi este livro por aí e foi mais um patrocinado por uma das minhas tias, no meu aniversário. Tem uma capa e um marcador lindíssimos, que remetem para ilustrações islâmicas de outros tempos.
A autora, Elif Safak, nasceu em 1971 em Estrasburgo, França. Escreve em turco e inglês. Publicou 17 livros, dos quais onze são romances, traduzidos em 50 línguas, e é uma das vozes mais importantes da literatura turca, combinando as tradições ocidentais e orientais da narrativa, tendo criado inúmeras histórias de mulheres, minorias, imigrantes, subculturas, juventude e almas globais. A sua escrita baseia-se em diversas culturas e tradições literárias, refletindo um interesse profundo por história, filosofia, cultura oral e política cultural. Shafak é doutorada em Ciências Políticas e lecionou em diversas universidades na Turquia, nos Estados Unidos e no Reino Unido. É membro do Conselho Global do Fórum Económico Mundial na Área de Economia Criativa e membro fundador do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR). Defensora dos direitos das mulheres, dos direitos dos LGBT e da liberdade de expressão, Elif Shafak é uma oradora pública inspiradora: participou duas vezes na plataforma global TED. TEve vários problemas com a censura no seu país, por divulgar terrorismo sexual, massacres da guerra com os curdos, entre outros. Quase foi presa pela temática do seu livro A bastarda de Istambul


Gostei imenso deste livro! Não sabia ao que vinha e fiquei agradavelmente surpreendida. Há um certo realismo mágico e uma ternura no tratamento das personagens que envolve e aconchega. A sinestesia está constantemente presente e ajuda-nos a estar na história.
Leila acabou de morrer. Durante 10 minutos e 38 segundos, as suas células agarram-se às recordações da sua vida. A um gosto, o do sal em que a submergiram em bebé. A melancia perfumada num verão. Ao borrego aquando do nascimento do irmão, quando tinha 7 anos. Ao café com cardamomo. Cada gosto ou cheiro traz um odor, uma situação, uma pessoa. É assim que vamos conhecer as histórias de Leila Tequila, prostituta de Istambul, fugida a uma família em que nem tudo era fácil, e dos seus cinco amigos, encontrados em meio de vicissitudes várias. Cada um dos minutos que se sucede à sua morte traz-nos lembranças doces ou dolorosas, a que nunca ficamos indiferentes. 
Depois desses 10 minutos e 38 segundos, vamos descobrir afinal o que aconteceu ao corpo de Leila e a forma como os seus amigos lhe prestam homenagem.
A par da história de Leila, está a cidade de Istambul (ou Istanbul), cidade considerada feminina pela autora, com a sua desorganização, o seu bulício, cheiros e cores, a quem é é dedicado este livro, bem como às suas habitantes. A forma como os seus habitantes vivem, especialmente as mulheres, é dura, mas cheia de cor. Fazemos uma viagem a esta cidade e ao seu movimento, à política, às diferentes formas de vida. Gostei, de facto, muito e quero ler outros livros desta autora. Esta história não é fácil, mas traz-nos informações culturais variadas e ricas. A forma criativa como está escrita cativa-nos (pelo menos, cativou-me).


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