Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories
Esta leitura aconteceu de uma maneira engraçada; a amiga que me deu A porta referiu como no Butão já tinham vacinado toda a população adulta ou algo do género. E acrescentou «porque não lês algo do Butão?». Supostamente, é o país com o maior índice de felicidade do mundo. Começámos as duas à procura e já nem sei como encontrámos esta autora. Depois, agradou-me imenso a capa do livro e comprei-o em inglês na Amazon, para o Kindle. Com as minhas verbas, já agora.
A autora, Kuzang Choden, nasceu em 1952 no centro do Butão e foi estudar para a Índia, Darjeeling, com cerca de nove anos. Depois, estudou em Delhi, psicologia, e foi tirar um MBA no Nebraska, USA. Trabalhou como professora no Butão e, a partir de 1990, começou a escrever contos tradicionais do seu país e recolhas do oral; foi a primeira mulher do Butão a publicar um romance em inglês e continua a pesquisar as tradições do seu país; vive com o marido em Thimphu e tem esse ar simpático da foto retirada do Goodreads que é de 2015. Desde 2014 é a representante do Butão na ONU.
O livro que li, Tales in Colours and Other Stories é um livro de contos. Fala-nos das novas realidades que as mulheres do Butão enfrentam, das suas escolhas e experiências.
| «Bhutanese women have always enjoyed a comparatively favourable status on a regional context as they have never suffered many of the gender based prejudices and discriminations endured by their sisters in the South Asian Region. We are now at a crucial stage in our transition and we must not let go of our hold on our traditional archetypes of strong and independent women. » Após esta citação inicial, vamos contactar com o modo de vida no Butão em onze contos. Uns são mais interessantes do que outros, mas todos me falaram de uma realidade completamente diferente da minha. No primeiro conto, a narradora conta-nos o impacto que teve, aos nove anos, quando em Delhi, no colégio de freiras para onde tinha ido estudar, uma das madres pôs em causa o seu nome face ao do pai, porque o seu último nome era igual ao primeiro do pai e isso não fazia sentido... Oseu nome, Kuzang, significa «perfeito» e Choden significa «abençoado». O pai chamava-se Kuzang Dorji, «perfeito» e «indestrutível». Ora, explica a narradora/autora, no Butão os nomes não têm género, não se herda o nome do pai/família e as mulheres herdam as terras da mãe. Aquele choque cultural ficou-lhe certamente na memória. Depois disto, vamos lendo contos onde o trabalho árduo e o sofrimento das mulheres são visíveis, sem que, no entanto, haja uma diferença por serem mulheres, a vida é que é mesmo dura. Hoje, a propósito de nada, um dos meus alunos informou-me que no Butão apenas existe uma estrada... Aquele índice de felicidade deve ser discutível para nós, ocidentais mal habituados e mimados... Nos diversos contos, são narrados episódios mais ou menos longos da vida de algumas mulheres, destacando aspetos diversos, como a religião e o que ela pode favorecer ou prejudicar, o contraste da vida rural e a urbana, o modo de vida das novas gerações. Os meus contos preferidos foram «Look at her belly bottom» e «Tales in colours». O primeiro fala de uma jovem mulher que ajuda na pior função que a mãe tem e já não tem forças para exercer: a recolha do estrume dos seus currais e o seu transporte para os campos para ser usado como fertilizante. Destaca-se a dureza do trabalho, o quanto lhe custa, mas como custaria mais à mãe sem quem ela «não se imagina a viver». Tsewng Doma, a jovem (e os nomes não me ficaram minimamente na memória), tem outra faceta na sua vida: vai, periodicamente, visitar a irmã e o cunhado à cidade de Thimphu (ou Thimpu), a capital. Aí, ela descobriu como era fácil a vida numa casa com dois quartos, água canalizada (não ter de ir para a fila buscar água e carregá-la!) e eletricidade. Descobre a televisão e algumas vaidades femininas: tratar da pele e do cabelo, pintar as unhas e, por último, colocar um piercing no umbigo, como viu na tv! Esta última ação torna-a especial na sua aldeia e confere-lhe uma autoestima e satisfação que a ajudam na árdua vida rural. Ela ganha poder ao descobrir como lidar com o espaço urbano. Gostei imenso! O outro conto fala-nos de Tsheringmo, uma experiente colorista de lã, que ensina os seus segredos a Kencho e Rinchem Dolma, de forma a que este conhecimento não se perca. Entre as técnicas e os materiais usados para tingir a lã, são também transmitidas lendas e superstições. Quando a idade traz a demência e o esquecimento à velha artesã, as antigas aprendizas, agora mulheres experientes, tratam dela e acarinham-na, mesmo ela não conseguindo discernir as suas identidades. A solidariedade feminina é uma constante na maioria dos contos. Para além das duras tarefas rurais e a algumas condições de vida a que, no mínimo, chamaríamos primitivas, também há destaque de alguns hábitos sociais, como alguma tolerância para as relações amorosas e infidelidades (mais para os homens, mas também para as mulheres, que têm filhos fora do casamento e não são olhadas de lado). Muito interessante o contacto com este país tão distante e diferente. A leitura em inglês é sempre mais lenta, para mim, e tenho muitas dúvidas sobre a validade da pontuação quase ausente nas histórias. |


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