terça-feira, 18 de maio de 2021

32 - Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories

Butão, Kuzang Choden, Tales in Coulors and Other Stories

Esta leitura aconteceu de uma maneira engraçada; a amiga que me deu A porta referiu como no Butão já tinham vacinado toda a população adulta ou algo do género. E acrescentou «porque não lês algo do Butão?». Supostamente, é o país com o maior índice de felicidade do mundo. Começámos as duas à procura e já nem sei como encontrámos esta autora. Depois, agradou-me imenso a capa do livro e comprei-o em inglês na Amazon, para o Kindle. Com as minhas verbas, já agora. 

A autora, Kuzang Choden, nasceu em 1952 no centro do Butão e foi estudar para a Índia, Darjeeling, com cerca de nove anos. Depois, estudou em Delhi, psicologia, e foi tirar um MBA no Nebraska, USA. Trabalhou como professora no Butão e, a partir de 1990, começou a escrever contos tradicionais do seu país e recolhas do oral; foi a primeira mulher do Butão a publicar um romance em inglês e continua a pesquisar as tradições do seu país; vive com o marido em Thimphu e tem esse ar simpático da foto retirada do Goodreads que é de 2015. Desde 2014 é a representante do Butão na ONU.


Chamou-nos a atenção o livro The Circle of Karma (de 2007), mas não me senti com coragem de ler um livro tão grande em inglês (437 páginas). Depois disso, descobri que existe em francês, Le cercle du karma, foi traduzido em várias línguas, e hei de lê-lo. Lá está, tão pouco tempo, tantos livros por aí...

O livro que li, Tales in Colours and Other Stories é um livro de contos. Fala-nos das novas realidades que as mulheres do Butão enfrentam, das suas escolhas e experiências. 

«Bhutanese women have always enjoyed a comparatively favourable status on a regional context as they have never suffered many of the gender based prejudices and discriminations endured by their sisters in the South Asian Region. We are now at a crucial stage in our transition and we must not let go of our hold on our traditional archetypes of strong and independent women. »
Após esta citação inicial, vamos contactar com o modo de vida no Butão em onze contos. Uns são mais interessantes do que outros, mas todos me falaram de uma realidade completamente diferente da minha.
No primeiro conto, a narradora conta-nos o impacto que teve, aos nove anos, quando em Delhi, no colégio de freiras para onde tinha ido estudar, uma das madres pôs em causa o seu nome face ao do pai, porque o seu último nome era igual ao primeiro do pai e isso não fazia sentido... Oseu nome, Kuzang, significa «perfeito» e Choden significa «abençoado». O pai chamava-se Kuzang Dorji, «perfeito» e «indestrutível». Ora, explica a narradora/autora, no Butão os nomes não têm género, não se herda o nome do pai/família e as mulheres herdam as terras da mãe. Aquele choque cultural ficou-lhe certamente na memória.
Depois disto, vamos lendo contos onde o trabalho árduo e o sofrimento das mulheres são visíveis, sem que, no entanto, haja uma diferença por serem mulheres, a vida é que é mesmo dura. Hoje, a propósito de nada, um dos meus alunos informou-me que no Butão apenas existe uma estrada... Aquele índice de felicidade deve ser discutível para nós, ocidentais mal habituados e mimados...
Nos diversos contos, são narrados episódios mais ou menos longos da vida de algumas mulheres, destacando aspetos diversos, como a religião e o que ela pode favorecer ou prejudicar, o contraste da vida rural e a urbana, o modo de vida das novas gerações.
Os meus contos preferidos foram «Look at her belly bottom» e «Tales in colours». O primeiro fala de uma jovem mulher que ajuda na pior função que a mãe tem e já não tem forças para exercer: a recolha do estrume dos seus currais e o seu transporte para os campos para ser usado como fertilizante. Destaca-se a dureza do trabalho, o quanto lhe custa, mas como custaria mais à mãe sem quem ela «não se imagina a viver». Tsewng Doma, a jovem (e os nomes não me ficaram minimamente na memória), tem outra faceta na sua vida: vai, periodicamente, visitar a irmã e o cunhado à cidade de Thimphu (ou Thimpu), a capital. Aí, ela descobriu como era fácil a vida numa casa com dois quartos, água canalizada (não ter de ir para a fila buscar água e carregá-la!) e eletricidade. Descobre a televisão e algumas vaidades femininas: tratar da pele e do cabelo, pintar as unhas e, por último, colocar um piercing no umbigo, como viu na tv! Esta última ação torna-a especial na sua aldeia e confere-lhe uma autoestima e satisfação que a ajudam na árdua vida rural. Ela ganha poder ao descobrir como lidar com o espaço urbano. Gostei imenso!
O outro conto fala-nos de Tsheringmo, uma experiente colorista de lã, que ensina os seus segredos a Kencho e Rinchem Dolma, de forma a que este conhecimento não se perca. Entre as técnicas e os materiais usados para tingir a lã, são também transmitidas lendas e superstições. Quando a idade traz a demência e o esquecimento à velha artesã, as antigas aprendizas, agora mulheres experientes, tratam dela e acarinham-na, mesmo ela não conseguindo discernir as suas identidades. A solidariedade feminina é uma constante na maioria dos contos.
Para além das duras tarefas rurais e a algumas condições de vida a que, no mínimo, chamaríamos primitivas, também há destaque de alguns hábitos sociais, como alguma tolerância para as relações amorosas e infidelidades (mais para os homens, mas também para as mulheres, que têm filhos fora do casamento e não são olhadas de lado). Muito interessante o contacto com este país tão distante e diferente. A leitura em inglês é sempre mais lenta, para mim, e tenho muitas dúvidas sobre a validade da pontuação quase ausente nas histórias.


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